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O legado de Fernando Daltro dez anos após a sua morte

Entrevista com Fernando Daltro em 2007 (Foto: João Batista Ferreira)

(Por João Batista Ferreira) – Em 2019, completou-se dez anos que perdemos um dos maiores ícones da política jacobinense. No dia 20 de julho de 2009, prestes a completar 80 anos, falecia Fernando Mário Pires Daltro, advogado, professor, deputado estadual, secretário estadual de Segurança Pública, prefeito e vereador pelo município de Jacobina. Um homem público com uma carreira brilhante e vitoriosa.

Pedro Daltro e Esther Pires, pais de Fernando (Aquivo de Familia)

Filho do promotor público Pedro Cerqueira Daltro e Esther Dias Pires, Fernando cursou o Primário na Escola Alice Barros de Figueiredo, o Ginasial no Colégio Ypiranga e o Clássico no Colégio Marista, em Salvador. Formou-se em Direito pela Universidade Federal da Bahia-UFBA, 1953, retornando a Jacobina para atuar com advogado,  professor e diretor do Centro Educacional Deocleciano Barbosa de Castro.

Fernando (centro) ao lado de “Seu Dú” e outras lideranças (Foto: Acervo Marizete Teófilo)

Em 1962, começava de fato a carreira política de Fernando Daltro, no grupo político do Coronel Chico Rocha, seu primo em segundo grau, elegendo-se vereador em Jacobina. Na Câmara Municipal cumpriu apenas dois anos do mandato, renunciando ao cargo por questões pessoais, para dedica-se integralmente à advocacia.

Mas, a política estava no sangue daquele talentoso advogado, que desde criança sonhava ser prefeito da sua cidade natal.

Fernando, ao lado de esposa Edna, e lideranças locais (Foto: Acervo Família Brandão)

Paciente, Fernando havia apoiado sucessivos candidatos indicados por Chico Rocha, a exemplo de Orlando Oliveira Pires (1955-1959), Florivaldo Barberino (1959-1963) e Ângelo Mário Moura C. Brandão (1963- 1967), esperando também a sua oportunidade de assumir o Paço Municipal.  

Chegavam então as eleições municipais de 1966, e Fernando Daltro era considerado o candidato natural do grupo comandado por Chico Rocha, mas, às vésperas de convenção eleitoral, acabou sendo preterido. O indicado do coronel foi um servidor da prefeitura, o contador José Prado Alves, Zuquinha Prado, como era popularmente conhecido.

Carlito discurso no “Dia da Vitória” em 1970 (Foto: Acervo Família Daltro)

Cansado de esperar por sua vez, Fernando Daltro decidiu romper com o coronel Chico Rocha, aliançando-se com seu maior adversário político, o deputado estadual Edvaldo Valois, que comandava o grupo da oposição na cidade.

Com o apoio dos Valois, nas eleições de 1966, Fernando Daltro foi candidato pela a Arena, mas, perdeu a disputa para Zuquinha Prado, o afilhado de Chico Rocha, por uma diferença de apenas 36 votos, ou seja, o  placar foi 8.792 a 8.756.

Durante comício na eleição de 1970, Seu Porcino segura um carcacá, ave que viraria símbolo do grupo político de Fernando e Carlito (Foto: Acervo Família Daltro)

Aquela derrota não abalou o bacharel Fernando Daltro que, rememorando a história do seu avô Ernestino Alves Pires, prometeu  manter-se firme na oposição com vistas ao pleito de 1970.   “Perdemos a eleição, mas em nenhum momento perdemos a compostura, a honra e a dignidade. A partir de hoje, iniciamos nova campanha, com redobrada coragem, com maior bravura, em busca de um ideal, que é o ideal dos homens dignos desta terra, de conseguirmos para dirigir nossa municipalidade um homem independente, livre e desligado de pequenos grupos gananciosos, que possa fazer um governo de paz, tranquilidade e progresso”, declarou durante no serviço de Alto-falantes “A Voz da Cidade”  logo a derrota em 1966.

Agora, declaradamente opositor do primo Chico Rocha, o advogado Fernando Daltro  se posicionou vigilante ao governo de Zuquinha Prado, inclusive com críticas ácidas à gestão municipal, numa prévia do que seria as eleições quatro anos depois.

Fernando, Carlito e Manoel Ignácio: os Irmão Coragem (Foto: acervo Família Daltro)

Em 1970, depois de quase cinquenta anos comandando o poder político em Jacobina, o coronel Chico Rocha sofreria a primeira e pior derrota da sua carreira.  

Numa disputa que entraria para a história da cidade, Fernando Daltro venceu o pleito com 1.260 votos a frente do candidato da situação, representado pelo professor Carlos Gomes, que mesmo sendo uma figura querida e ilustre não conseguiu suplantar a onda de mudança que tomou conta da cidade.

O candidato a vice-prefeito foi professor o Gilberto Miranda, nascido em Miguel Calmon, que naquela eleição também começava a despontar para a política, sendo eleito, no pleito seguinte, prefeito de Jacobina com o apoio de Fernando Daltro.

Naquela eleição surgiram os “carcarás”, que virou marca registrada do grupo político comandado pelos Daltros.  Também, pegando carona na novela de maior sucesso em 1970, Fernando Daltro, Carlito Daltro e Manoel Ignacio receberam o apelido de “Irmãos Coragem”.

Edna, Fernando e Maria Aparecida Pires Daltro choram a derrota para Zuquinha Prado nas eleições de 1966 (Foto: acervo família Daltro)

Nos dois anos que esteve à frente da prefeitura de Jacobina, Fernando Daltro rompeu com velhos paradigmas, estabelecendo uma nova ordem política e administrativa, incluindo o Legislativo Municipal que tinha na presidência o ex-prefeito Ubaldino Mesquita Passos, Seu Dú, homem público respeitado e com grande capacidade de articulação.

Além do presidente Ubaldino Mesquita Passos, a Câmara Municipal (1971 a 1973) contava com figuras ilustres como Ariobaldo Oliveira (vice-presidente), Lourival Martins (secretário), Agnelo de Oliveira, Almir Lopes de Souza, Argemiro da Silva, Belmiro da Silva, Edson Mesquita, Gabriel dos Santos,Gustavo Souza, João Aureliano Gomes, Luiz Maximiniano dos Santos, Pedro Teodoro da Silva, Reinaldo Magalhães e Roberto de Castro.

Edna e Fernando Daltro: o “Casal 20” na década de 70 em Jacobina (Acervo Marizete Teófilo)

Depois da prefeitura de Jacobina, Fernando Daltro se credenciava para voos mais altos,  cumprindo uma carreira política ascendente, elegendo-se em seguida deputado estadual, tendo cumprido quatro mandatos na Assembleia Legislativa da Bahia. Entre 1989 e 1990, licenciou-se do mandato, para assumir a Secretaria Estadual de Segurança Pública, durante o governo de Nilo Coelho.  

Ele concorreu ao cargo de vice-governador na chapa encabeçada pelo ex-governador Roberto Santos, que não logrou êxito. Voltou a advogar e a atuar empresarialmente.

Fernando e Edna com os filhos Maria Esther, Maria Fernanda e Fernando Mário Júnior (Foto: acervo Marizete Teófilo)

Dr. Fernando era casado com a professora e empresária Edna Daltro, já falecida, e deixou três filhos: Maria Esther, Maria Fernanda e Fernando Mário Júnior.

Mesmo após uma década de sua ausência física, Fernando Daltro continua sendo lembrado pelo povo jacobinense, e seu legado político continua inspirando as novas gerações na Cidade do Ouro.

João Batista Ferreira – é bacharel em Serviço Social, radialista/jornalista.

P.S. Em 2007, não me recordo o mês, estive na residência da professora Anécia Teixeira Rocha, que intermediou uma entrevista com Fernando Daltro para o jornal O Encarte. Fui recebido logo após o almoço, e tivemos uma conversa muito agradável. Acredito que essa tenha sido a última entrevista do saudoso líder político.  A qualidade do áudio não é das melhores,  mas, vale a pena ouvi-la !

As fotos publicadas, com exceção da primeira, que é de minha autoria, foram fornecidas gentilmente por familiares e amigos de Fernando Daltro. Portanto, caso desejem reproduzi-las, por favor, façam sempre com o devido crédito.

Ouça entrevista com Fernando Daltro:

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