A estrada que liga a BR-324 ao distrito de Itaitu, no município de Jacobina: esquizofrenia institucional ou síndrome de falência técnica e mental ?

Por Fernando Mário Pires Daltro Jr

A região do distrito de Itaitu, vilarejo bucólico, encrustado no coração da Chapada do Piemonte, vem ganhando adeptos e admiradores ao longo dos últimos anos.

A crescente “invasão” de visitantes de todos os cantos do Estado, quiçá de outras unidades da Federação, revela a aptidão turística do local e o forte apelo ecológico refletido na paisagem única das serras pedregosas e das cachoeiras que escoam em suas entranhas.

Há, no cenário pandêmico atual, dois graves problemas percebidos; todos, diga-se, anteriores ao grave momento de distanciamento social compulsório, decorrente dos riscos de infecção pelo corona vírus SARS-CoV-2.

O primeiro deles é o impacto ecológico que vem sendo  produzido na região, cujos aspectos técnicos não temos gabarito científico para abordar, muito embora já fosse preocupante, aos olhos de qualquer leigo consciente, a omissão dos poderes municipais quanto à orientação e controle quantitativo de acesso de pessoas aos sítios naturais, notadamente pela utilização indiscriminada de alimentos industrializados e depósito de resíduos às margens dos mananciais, além do estrondoso impacto gerado pela captação aleatória de água das fontes naturais, com utilização, também indiscriminada e gratuita, de águas naturais oriundas das serras, sem qualquer tratamento prévio e específico para uso humano.

O segundo e não menos grave problema enfrentado por todos que transitam e ou residem na região é a forma irresponsável, para não dizer delinquente, com que a Prefeitura de Jacobina vem cuidando da estrada vicinal, que liga a BR-324 ao entroncamento da Vila de Itaitu, outrora conhecida como Riachão de Jacobina.

Despiciendo referir à importância econômica que a via referida adquiriu ao longo dos últimos anos, com escoamento diário de bens e pessoas, atendendo, inclusive, às diversas comunidades crescidas às margens ou próximas à rodovia, como o Campestre, o Timbó, a Lagoa da Formiga, a Coréia e o Piancó.

Inobstante esta óbvia realidade, a atual gestão do poder público municipal vem dando sinais de notória e inaceitável esquizofrenia institucional, ou, pior, manifesta rara e repudiável incapacidade técnica de cuidar de um equipamento público tão relevante e estratégico.

A Secretaria de Obras do município dedica olhar perverso e desrespeitoso para com os usuários daquela estrada. Em primeiro lugar, há cerca de um ano, iniciou, pelo clamor da comunidade da Lagoa do Timbó, que já não suportava a poeira vermelha do barro da estrada no interior de suas casas, uma lenta e esdrúxula intervenção, para instalação de paralelepípedo, num trecho que, salvo melhor juízo, deve se estender por pouco mais de um quilômetro.

De início, calçou um dos lados do trecho demarcado, de forma letárgica e sem qualquer compromisso com o tempo e a qualidade da obra.

Lamentavelmente, nenhuma homenagem ou respeito aos recursos públicos foram cogitados pelo alcaide. Pior, aparentemente sem prévio levantamento topográfico e sem qualquer apreço para com o escoamento das águas pluviais, a obra se arrasta há um ano, sempre com pífia equipe de três ou quatro obreiros, que, sem nenhuma frequência regular, ou mesmo supervisão técnica, já constata enormes crateras ao longo do trecho “pavimentado”, indicando inestimado desperdício de materiais e o prenúncio de mais uma obra pública nascida tenebrosa e banguela.

Não bastasse um ano inteiro de espera e frustração da comunidade da Lagoa por um calçamento fantasioso, nos últimos dois meses, a gestão municipal iniciou mais uma intervenção desastrosa ao longo de toda a estrada, já agora despejando, em diversos trechos, aparentemente de seleção aleatória, grandes quantidades de cascalho e terra, cuja pavimentação, como de praxe, se arrasta sem previsão de conclusão, causando acidentes, dificultando acesso e distribuindo transtornos indistintamente.

As chuvas que caem ostensivamente na região agravam o quadro, e, a exemplo do que ocorre no trecho da Lagoa da Formiga, já não se vê máquinas e nem homens trabalhando com a frequência esperada, somente lama, amontoados de materiais despejados obstruindo parte da pista, além de carros quebrados e ou acidentados, prejuízos para todos os lados e um caótico estado de mobilidade.

Diante desse triste cenário, é inquietante o estado de risco imposto a todos nós pelo poder público municipal, como se já não bastassem as dificuldades que a pandemia causada pelo corona vírus impõe.

Indagações perturbantes assolam os usuários da estrada que nos conduz a Itaitu. Afinal, quanto está sendo investido? Quanto já foi pago? E no caso daquele arremedo de obra quase paralisada, qual a causa? O que a Administração Municipal está fazendo para a retomada e conclusão da obra? Será que o gestor municipal conhece a dicção do art.45 da Lei de Responsabilidade Fiscal (Lei Federal nº 101/2000)? Será que tem ideia dos prejuízos que vem causando?

Sem transparência e nenhuma eficiência no monitoramento das obras municipais, a prostração pública tem sabor de amargo remédio. O escárnio para com as expectativas das comunidades distritais produz frustração e desconfiança. A esperança de mudança só pode advir das urnas.

Fernando Mário Pires Daltro Jr.,  é brasileiro, divorciado, funcionário público, natural da cidade de Jacobina-BA.

One thought on “A estrada que liga a BR-324 ao distrito de Itaitu, no município de Jacobina: esquizofrenia institucional ou síndrome de falência técnica e mental ?

  • 24 de Junho, 2020 at 9:49 pm
    Permalink

    O artigo sobre Itaitu, e ficaria melhor Riachão, como do meu tempo em Cachoeira Grande, merece destaque e atenção. E muito mais a questão do desrespeito aos mananciais, construção indevida, ou várias, próximo à Cachoeira Véu de Noiva, além do lixo deixado pelos ‘ilustres’ visitantes. Gente importante que deixa lixo em local desse naipe deveria repensar seu comportamento. E soube ainda que a Gestão Municipal de agora permitiu que se construam ‘palacetes’ ao longo da estradinha, ou ‘vereda’, que dá acesso ao local da nascente principal. E que houve uma certa demarcação. Isso não é bom. Nenhuma construção deve ser permitida. Daqui a pouco, vão querer fazer bangalôs ao lado do riacho, que forma a barragem em Cachoeira Grande, aliás, que dá o líquido que serve Jacobina e outras cidades, além de muitos distritos e povoados. Perguntar não é crime: Vossa Senhoria, autor do artigo, tem descendência do deputado que foi o senhor Daltro? Use seu prestígio e faça uma campanha para ‘despoluir’ todo esse local em Riachão. Esse ‘turismo desenfreado’ não é salutar. Devemos conversar mais. João Carlos de Oliveira, advogado, escritor, blogueiro, professor jubilado. http://www.linguagemdocotidiano.com.br

    Reply

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *