Jacobinense Tomaz Aroldo da Mota, ex-reitor da UFMG, morre aos 76 anos

Morreu na manhã desta quinta-feira, dia 18, aos 76 anos, um ilustre jacobinense, o professor emérito Tomaz Aroldo da Mota Santos, reitor da UFMG na gestão 1994-1998, diretor do ICB por dois mandatos (1990-1994 e 2010-2014) e presidente da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições de Ensino Superior (Andifes), no biênio 1997-1998. Ele estava internado no Hospital Madre Teresa, em Belo Horizonte, onde se tratava de um câncer nos rins.

O corpo de Tomaz será velado nesta sexta, 19, das 10h30 às 11h30, no saguão da Reitoria da UFMG, no campus Pampulha. Por causa da pandemia de Covid-19, medidas sanitárias de distanciamento social e cuidados de higiene serão adotados durante o velório. Haverá rodízio, com máximo de 10 pessoas por vez no local (prioridade para familiares) e distância mínima de um metro entre os presentes. Cumprimentos deverão ser evitados, e pessoas com sintomas de doenças respiratórias não devem comparecer. Por meio de portaria, a Universidade decretou luto oficial de três dias.

A reitora Sandra Regina Goulart Almeida lamentou a morte do professor. “Ela representa uma grande perda para a toda a comunidade da UFMG e para o Brasil. Tomaz foi uma das maiores lideranças da história da Universidade e uma inspiração constante para todos nós”, disse Sandra, ao citar algumas realizações de sua gestão, como a abertura de novos cursos, a flexibilização curricular, a ampliação dos acervos das bibliotecas e o estímulo à educação de jovens e adultos.

De acordo com a reitora, Tomaz era um homem de posições firmes em sua incansável defesa da universidade pública, gratuita e cada vez mais inclusiva e do investimento público em educação e ciência. “Ao mesmo tempo, era uma pessoa afável, acolhedora, generosa e agregadora. Sua gestão à frente da Andifes também representou um marco no processo de articulação política e institucional das universidades federais”, ressaltou.

Outra característica do ex-reitor destacada por Sandra Almeida foi sua capacidade de aceitar novos desafios. “Tanto que, em 2014, logo após a sua aposentadoria, ele assumiu a direção da Unilab, a Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-brasileira. Tomaz é dessas pessoas insubstituíveis. Fará muita falta, ainda mais neste momento tão difícil que atravessamos”, disse.

O atual diretor do ICB, Carlos Augusto Rosa, também vê o professor Tomaz como modelo e inspiração. “Sempre me lembro de suas palavras a respeito de como administrar uma instituição com competência, ética e respeito ao próximo. Era curioso como ele desenvolveu habilidades, aliadas a uma sensibilidade que o fazia ser percebido como coerente e reto até mesmo pelas pessoas que porventura pudessem não concordar com suas opiniões”, destaca Rosa. “Coerência era uma das palavras que poderiam defini-lo”, resume.

De Itapeipu para o mundo
Em uma concorrida cerimônia realizada em maio de 2017, no auditório da Reitoria, Tomaz Aroldo da Mota Santos recebeu o título de professor emérito. Na oportunidade, ele recordou histórias de sua vida, como a de que só fora apresentado ao seu prenome – Tomaz, homenagem ao avô paterno – aos oito anos, já na escola em que frequentava em Itapeipu, distrito de Jacobina, na Bahia. Em casa, ele era chamado apenas de Aroldo.

Entre aplausos, Tomaz fez um tributo à educação pública e lembrou na cerimônia que sua bem-sucedida trajetória não era obra exclusiva do próprio mérito: “Meu empenho foi indispensável, pois esforço e dedicação são necessários a qualquer pessoa que queira construir sua vida profissional, sua autonomia. Mas eu não me fiz sozinho. Minha trajetória profissional não teria sido possível sem que outras condições tivessem sido providas”.

Tomaz Aroldo chegou a Belo Horizonte em 1960, depois de concluir o curso ginasial em Jacobina e o ensino médio em Salvador. Influenciado pelo irmão Altino, ele ingressou na militância católica de esquerda. “Percebi que católicos podiam conviver com marxistas na busca do ideal comum da justiça social”, afirmou. Sua atividade política o conduziu ao curso de Sociologia e Política, em 1963, na Faculdade de Ciências Econômicas. No ano seguinte, deixou o curso após o golpe civil-militar. Em 1965, ingressou no curso de Farmácia-Bioquímica da UFMG, onde se formou em 1968. Também pela UFMG, fez doutorado em Bioquímica e Imunologia, concluído em 1977. No período de 1986 a 1988, fez residência pós-doutoral em Imunologia no Instituto Pasteur, em Paris.

No âmbito da gestão universitária, Tomaz foi pró-reitor de extensão (1984-1986) e diretor do ICB de 1990 a 1994. Em seguida, assumiu a Reitoria da UFMG, na qual cumpriu mandato até 1998. Sua segunda gestão como diretor do ICB foi de 2010 a 2014. Aposentou-se aos 70 anos e, na sequência, assumiu, em caráter pro-tempore, a Reitoria da Unilab, no Ceará. Ultimamente, presidia a Organização dos Aposentados (OAP) da UFMG. 

Como pesquisador, sua experiência concentra-se na área de Imunologia, com ênfase em imunoparasitologia e imunobiologia. Um dos seus mais importantes trabalhos foi no campo da imunologia da esquistossomose, em parceria com o professor Giovanni Gazzinelli, falecido neste ano. “Descobrimos a imunossupressão em animais infectados como possível mecanismo de atenuação das reações inflamatórias e de facilitação da adaptação do parasita ao hospedeiro”, resumiu Tomaz, durante a homenagem de 2017.

Tomaz Aroldo da Mota Santos durante sua temporada no pós-doutorado em Paris, com a família: a esposa, Yara, e dois de seus filhos, Daniel e Pedro. O terceiro, Ernesto, é o autor da foto

Questão racial
Ainda na cerimônia em que recebeu o título de emérito, Tomaz Aroldo, primeiro e único reitor negro da UFMG, fez uma reflexão sobre sua negritude, o racismo e o papel da universidade no combate à discriminação. Segundo ele, sua dupla condição de reitor e negro havia lhe dado “maior consciência da discriminação racial pelo que ela tem de mais iníquo”.

Esse aspecto foi lembrado em nota de pesar divulgada pela Andifes na manhã de hoje. Durante sua gestão, Tomaz criou a Rede Negritude. “Muito antes do sistema de cota racial ter sido implementado nas universidades, ele já defendia direitos e inclusão”, destacou o comunicado.

Tomaz Aroldo da Mota Santos deixa a esposa, Yara Maria Frizzera Santos, professora aposentada da PUC Minas, e os filhos Ernesto, que é professor da UFMG, Pedro, docente na Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri, Daniel, sociólogo, e os netos Pedro, Nuno e João Marcos.

Ainda sob o impacto da perda do pai, o filho Pedro cita uma frase que Tomaz repetia com frequência e resumia seu ideal de vida: “Ele sempre falava: a vida é ser feliz e fazer o bem”.

A trajetória de Tomaz Aroldo da Mota Santos foi destaque na página especial lançada pela UFMG por ocasião das comemorações de seus 90 anos.

Com informações da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) 

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