A ida dos que não ainda não foram
Oh, pedaço de mim
Oh, metade amputada de mim
Leva o que há de ti
Que a saudade dói latejada
É assim como uma fisgada
No membro que já perdi.
Chico Buarque de Holanda
Passadas décadas das lutas ideológicas que ofereceram ao povo brasileiro liberdade de expressão, estado democrático, saúde pública universalizada, fim dos manicômios e direito a tratamento em liberdade em saúde mental, mais verba e melhor acesso à educação, vemos quão poucos que hoje atuam como lideranças populares atualmente mantém o vínculo prioritário junto aos vulneráveis.
Os anos 1960 a 1980 contaram com jovens e adultos que arriscaram suas vidas e de seus familiares, além dos empregos e bens em favor dos excluídos, tenham sido religiosos, políticos, militantes, estudantes, profissionais ou sindicalistas.
Depois de conquistados a duras penas os direitos escritos da constituição cidadã de 1988, quem herdou os serviços advindos destas conquistas, três décadas depois, parece apenas lutar por seus direitos, sem defender os usuários e honrar quem tombou no caminho.
Os políticos lutam pelos partidos, por seus ídolos de barro, a maioria sem histórico algum no front da “democracia eleitoral” que foi instalada com o sacrifício de homens e mulheres que buscaram o bem comum, sem vantagens financeiras, de poder ou cargos.
Os serviços de saúde, o SUS, as Equipes de saúde da família, os Caps, foram fruto de gente que lutou, se expos, não por ganhos a mais no final do mês ou de um emprego, mas por justiça social. Estes não foram embora ainda, alguns vivem nas obras e exemplos dados, mas, os que teimam em permanecer se deparam com uma massa de profissionais sem este vínculo ideológico que transformou a saúde brasileira, especialmente por terem achado a “mesa posta”.
A luta antimanicomial brasileira foi, segundo o pesquisador Maurice de Torrenté (pesquisador do NISAM, do ISC/UFBA) a única no mundo realizada por iniciativa de profissionais, familiares e usuários dos serviços de saúde mental, mas, vem perdendo sua força por falta daquilo que moveu estas pessoas no passado: vínculo ideológico.
A falta de estabilidade nos empregos, com a precarização dos vínculos trabalhistas, a falta de concurso público, também contribui muito com o quadro atual, onde a grande maioria dos profissionais atuam em serviços complexos, que exigem muito além do que conhecimento vindo da graduação, muitas vezes deficiente.
A população também parece ter terceirizado suas demandas para os “representantes” temporários de suas vidas, que fazem algum esforço eleitoral a cada quatro anos, mas, não vivem o mesmo do que quem precisa, especialmente os que habitam as capitais e o Distrito Federal.
Quem ainda não saiu da linha de frente vive o paradoxo de ter lutado para ver mudança no quadro dantesco antes da Reforma psiquiátrica e do SUS e a realidade atual, onde todos cobram melhorias sem qualquer engajamento verdadeiro, sem se arriscar, sem conhecer a linha de frente.
“Nem um passo atrás”, gritam os neo-militantes, mas, sem participação efetiva ao menos nos conselhos locais de saúde, fica parecendo apenas busca de interesses pessoais, partidária, eleitoreira, sem empatia alguma pela luta coletiva.
Oh, pedaço de mim
Oh, metade adorada de mim
Lava os olhos meus
Que a saudade é o pior castigo
E eu não quero levar comigo
A mortalha do amor
Adeus.
(Chico Buarque)
Cledson Sady abril de 2026
Membro da Academia Jacobinense de Letras
