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A história de Luiz Pereira de Almeida: do patuá de Jacobina aos cárceres de Lisboa

Como poderia ter sido Luiz Pereira de Almeida, do sertão baiano aos cárceres de Lisboa.
Retrato criado por IA.

Por João Batista Ferreira 

Depois de revisitarmos as trajetórias de José Martins e de Mateus Pereira Machado, chegamos agora ao terceiro acusado: Luiz Pereira de Almeida, escravo cuja participação no caso das bolsas de mandinga o levou das margens do Rio Itapicuru, em Jacobina, aos sombrios porões do Santo Ofício português.

A história de Luiz começa quando o vigário João Mendes abriu, em 1745, o sumário de culpas que abalaria Jacobina. Segundo o depoimento de José Martins, foi o próprio Luiz quem lhe pediu que guardasse por alguns dias uma pequena bolsa de couro. Só mais tarde confessou que dentro dela havia uma hóstia consagrada, retirada da igreja com ajuda de outro escravo, Mateus. A presença desse objeto sagrado — visto pelos inquisidores como prova de sacrilégio — acendeu a suspeita de que Luiz participava de práticas consideradas demoníacas. A senhora de Luiz, ao prestar depoimento, reforçou os rumores: contou que ouvira dizer que José Martins, acompanhado de um primo, fizera “mandinga” na noite de São João, comentário que acabaria incriminando também seu próprio escravo.

Preso em Jacobina junto com os outros três acusados, Luiz viveu as mesmas tensões e incertezas do grupo. Passou dias no cárcere da vila até conseguir fugir em conjunto, num episódio que aumentou ainda mais a desconfiança das autoridades e o interesse da Inquisição sobre o caso. Durante mais de um ano, permaneceu como foragido nos sertões, período em que a investigação avançou e ganhou contornos transatlânticos. Em 1750, uma ordem direta vinda de Lisboa determinou que todos os envolvidos fossem capturados e enviados para o Reino, onde seriam julgados pelo tribunal do Santo Ofício.

Recapturado e remetido primeiro à Bahia, Luiz embarcou acorrentado rumo à Europa. Chegou a Lisboa em janeiro de 1752 e foi imediatamente separado dos outros réus, colocado em cela individual sem qualquer contato com seus companheiros. Era o protocolo do Santo Ofício: isolar, esvaziar, desorientar. Nos interrogatórios, Luiz manteve a versão de que entregara a bolsa a José Martins sem imaginar que aquilo resultaria em crime tão grave. As diligências enviadas a Jacobina, no entanto, traziam depoimentos que reforçavam a suspeita de que ele conhecia e utilizava patuás havia bastante tempo. Para os inquisidores, essa familiaridade era sinal de superstição e feitiçaria.

Os meses seguintes foram marcados por longos silêncios, esperas e audiências. Assim como os outros jacobinenses, Luiz enfrentou o rigor das práticas inquisitoriais, passando pela tortura do potro, em que os membros eram esticados por correias e torniquetes para forçar confissões. Submetido à dor extrema, afirmou que nunca houve pacto, apenas a crença — comum entre africanos e crioulos — de que a bolsa oferecia proteção contra perigos do sertão. Nada disso foi suficiente para abrandar o julgamento que se aproximava.

Em 20 de junho de 1756, Luiz Pereira de Almeida foi levado ao Auto de Fé de Évora, o primeiro realizado após o grande terremoto de Lisboa. Ali, diante de autoridades e de uma multidão reunida para assistir às sentenças, ouviu sua condenação: açoites públicos e degredo em terras distantes de Portugal. Depois desse dia, o destino de Luiz se perde nos arquivos. Não sabemos se sobreviveu ao exílio, se recebeu a liberdade com o decreto de 1761 que libertou escravos residentes no Reino, ou se desapareceu na imensidão das vilas portuguesas.

O que permanece é sua travessia — de escravo na Jacobina do século XVIII a réu da maior máquina repressiva religiosa de seu tempo. Sua história revela como um simples patuá, usado como proteção nas estradas do sertão, pôde se transformar em sentença de exílio quando interpretado sob o olhar implacável da Inquisição.

Para a elaboração deste artigo, utilizei como principal referência o estudo “Quatro mandigueiros do sertão de Jacobina nas garras da Inquisição”, pesquisa conduzida pelo antropólogo e historiador Luiz Mott.

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