Caps AD Jacobina: vinte anos acolhendo invisíveis sociais

Em 2005, após implantarmos o Caps II em Jacobina a Bahia seguia com uma rede muito frágil de saúde mental, especialmente no acolhimento de pessoas usuários de álcool e outras drogas. Em Jacobina esta demanda não era avaliada pela saúde pública, sequer fez parte de alguma promessa vã de campanha eleitoral, em tempo algum.
Alguns usuários crônicos viraram figuras folclóricas da cidade, num misto de loucura e uso de álcool. Os sofrimentos domésticos decorrentes do abuso de álcool eram e continuam sendo “coisa de casal”. O acesso a este tipo de cuidado no setor público inexistia na região.
O então diretor de saúde mental da SESAB, Dr. Paulo Gabrielle, propôs que implantássemos um Caps AD II em Jacobina, devido ao estreitamento de vínculos que tivemos após a implantação do Caps II, com a chegada de psiquiatras conhecidos dele no meio acadêmico.
Eu acreditava já ter cumprido minha tarefa em Jacobina, podendo retornar a minha função de Cirurgião Dentista, efetivo do município e do Estado, mas, existiam algumas questões internas para que eu ficasse e implantasse o serviço, desde o conhecimento com a equipe do Caps II, ao contato com o Coordenação Nacional de Saúde Mental e diretoria estadual de saúde mental.
A Bahia só tinha quatro Caps AD, sendo apenas um em Salvador, coordenado na época pelo CETAD, UFBA e SESAB, sem participação da prefeitura de Salvador.
O município não reconhecia a demanda, mas, o estado resolveu apoiar caso aceitássemos a proposta. Não foi fácil, pois tivemos muito pouco tempo para as inúmeras providencias, desde a reforma e adaptação do imóvel, no antigo colégio Comenius, no Condomínio Motinha, a composição e treinamento da equipe, de profissionais de Nível Superior, oficineiros, administração e copa/cozinha, aquisição de móveis e utensílios, tudo licitado com as devidas especificações, construção do Projeto técnico do Caps AD, grade de atividades etc.
Inauguramos no dia 27 de setembro de 2006, com as presenças dos queridos amigos Pastor Presbiteriano Milton Cesar e Padre José, que reconheciam as demandas dos seus núcleos religiosos, além das autoridades municipais, do Dr. Paulo Gabriele, população e equipe de trabalho.
Os primeiros pacientes foram chegando por demanda espontânea, uma das possibilidades do Caps AD, já que esta clientela dificilmente frequenta unidades de atenção básica. Os hospitais gerais nunca gostaram muito de internar esta clientela, por muitas vezes chegarem em crise, sem suporte familiar, as vezes com comorbidades, incluindo transtorno mental maior.
Muitas equipes passaram por este serviço de suporte a gente que não é notado. Muitos colegas viram o fim trágicos de alguns deles e a recuperação de outros, mesmo tendo que continuar no Caps AD, por ser este um dos únicos lugares onde são aceitos como seres humanos com as dificuldades de um adicto.
Nestes vinte anos de vida, temos agora um Caps AD com prédio próprio, alimentação e medicação regular, oficinas terapêuticas funcionando, acolhimento por demanda espontânea diário, consultas com especialistas, após admissão no serviço, agendadas periodicamente, medicações sendo oferecidas com regularidade. Agradecemos a atual gestão, de todo o coração, todo o apoio dado desde o primeiro dia de 2025.
Infelizmente esta clientela continua a ser vista com os olhos medievais do pecado e da exclusão, como foi feito com os leprosos. Mesmo nas famílias existe a dificuldade de entender a situação de um adicto, suas recaídas, dificuldades, limites. Continuaremos a acolher e cuidar de quem nos procura, a honrar os princípios da reforma psiquiátrica e a nossa tarefa.
Parabéns a todos os colegas que por aqui passaram e quem continua. Parabéns aos usuários e familiares que persistem em buscar espaço de cuidado e socialização.
Cledson Sady
Membro da Academia Jacobinense de Letras
