Em 1921, decreto em Jacobina proibiu mulheres de usar saias acima de cinco centímetros dos tornozelos

Por João Batista Ferreira
Olhar para o passado de Jacobina nos permite compreender como as transformações sociais do início do século XX repercutiam em nossa comunidade. Em março de 1921, o jornal de circulação estadual A TARDE trouxe em sua capa uma matéria sobre as medidas de ordenamento público adotadas por Davino Teixeira dos Santos, que então exercia o cargo de suplente da Delegacia de Polícia de Jacobina. O episódio ilustra o choque cultural entre os costumes tradicionais do interior e as novas tendências que chegavam das grandes capitais.
Naquela época, os agentes da lei nas pequenas cidades acumulavam diversas funções para garantir a segurança e a organização do espaço urbano. O edital publicado por Davino Teixeira trazia uma série de determinações administrativas importantes para o cotidiano do município. Entre as normas, estavam a proibição de corridas com animais em alta velocidade pelas ruas centrais, o controle do porte de armas brancas ou de fogo, e a restrição a jogos de azar.
Além das regras de segurança, o decreto também buscava regulamentar o comportamento social e o vestuário na cidade. O documento estabelecia que as roupas femininas de determinadas categorias da população deveriam seguir um padrão rígido de discrição, determinando que as saias guardassem a distância de, no máximo, cinco centímetros acima dos tornozelos.
Essa preocupação com a vestimenta refletia o momento histórico global dos anos 1920. Com o fim da Primeira Guerra Mundial, o mundo assistia ao surgimento da moda das “melindrosas”, movimento em que as roupas femininas começaram a encurtar e a ganhar mais praticidade. Para as autoridades da época, habituadas ao rigor dos séculos anteriores, a rápida chegada dessas novas tendências era vista com cautela e preocupação com a manutenção dos valores tradicionais.
O jornal A TARDE, publicado em Salvador, acompanhava de perto as decisões das delegacias e prefeituras do interior. Ao tomar conhecimento do edital de Jacobina, o periódico optou por fazer uma cobertura baseada na crônica de costumes, utilizando o tom irônico e bem-humorado que era a marca do jornalismo daquela década.
A matéria reproduziu o texto do edital enviado de Jacobina, destacando o zelo do agente da lei na aplicação das normas. Para a imprensa da capital, a tentativa de legislar sobre o comprimento das saias era vista como um reflexo curioso do conservadorismo do interior frente à modernização que avançava no país. Um correspondente do jornal chegou a recolher uma via do documento para que fizesse parte do acervo de registros históricos da publicação.
Mais de um século depois, o episódio permanece como um documento valioso para entender a evolução da sociedade baiana. As medidas adotadas por Davino Teixeira dos Santos faziam parte do esforço de uma autoridade local em manter o que se considerava a ordem e o decoro em sua época, de acordo com as referências daquele período.
A publicação do jornal A TARDE em 1921 serve como um espelho de um tempo de transição, mostrando como Jacobina, mesmo geograficamente distante da capital, já estava inserida nos debates e nas transformações que moldaram o comportamento e a cultura do Brasil moderno.

