O dia em que Regime Militar interveio no Grêmio do Colégio Deocleciano em Jacobina

Por João Batista Ferreira
Documentos secretos revelam o papel do Colégio Deocleciano e do professor Ivanilton Costa Santos nos primeiros dias da ditadura em Jacobina
Quem frequenta hoje o Centro Educacional Deocleciano Barbosa de Castro ou o Centro Noturno de Educação da Bahia (Ceneb) dificilmente imagina que aquelas salas de aula já foram palco de um dos episódios mais marcantes da história política de Jacobina. Mais de seis décadas depois, documentos que permaneceram apreendidos pelo Inquérito Policial-Militar (IPM nº 27/64) e mantidos sob sigilo durante anos ajudam a reconstruir esse período. O Blog Jacobina 24 Horas teve acesso a dois desses ofícios históricos, apreendidos no escritório do advogado Ivanilton Costa Santos, que também lecionava no Colégio Deocleciano e se tornaria o principal alvo da repressão militar na cidade.
O primeiro documento, datado de 22 de outubro de 1963, foi produzido pelo Grêmio Lítero Esportivo “Deocleciano Barbosa de Castro” e encaminhado ao professor Ivanilton Costa Santos. Assinado pelo presidente Antônio Gustavo dos Santos, pelo secretário-geral Carlos Oliveira Torres e pelo secretário de Cultura Antônio Carlos Brito Nogueira, o ofício convidava o advogado para ministrar uma conferência sobre “A Mocidade e sua Tribuna de Vida”. Em um dos trechos, os estudantes afirmavam que pretendiam discutir “os futuros destinos e futuros brasileiros” e alertavam para “o grande perigo que estão suportando e o que devem fazer para expurgarmos e nos livrarmos das consequências motivadas por tais perigos”. Em outro momento, o documento revela o ambiente político vivido pelos jovens ao declarar que “vivemos uma época das revoluções” e que era necessário preparar a juventude para “registrar a nossa Pátria das mãos dos exploradores”. As expressões, comuns no clima de intensa polarização política do período, mais tarde seriam interpretadas pelos militares como indícios de atividade subversiva.

Poucos meses depois do golpe militar, outro documento mostraria como a realidade havia mudado radicalmente. Em 11 de abril de 1964, apenas dez dias após a deposição do presidente João Goulart, um ofício determinava ao senhor Anacleon Alves Barbosa que assumisse, “desta data em diante”, a função de interventor no Grêmio Lítero Esportivo Deocleciano Barbosa de Castro, com poderes para destituir imediatamente a diretoria legitimamente eleita. O texto afirma que a decisão era tomada pelo Comando de Segurança Nacional, com o apoio da Delegacia de Polícia, do Departamento Militar de Segurança e do juiz da comarca, agradecendo ainda a colaboração para o “bom êxito do processo de descomunização de nossa Pátria”. Era o reflexo imediato da nova ordem política instalada no país, que passava a intervir diretamente nas entidades estudantis.

A apreensão desses documentos no escritório de Ivanilton Costa Santos não foi casual. Advogado desde 1957 e professor do Colégio Deocleciano, ele era apontado pelos militares como o principal articulador dos grupos nacionalistas em Jacobina. Nos autos do IPM nº 27/64, chegou a ser classificado como o “regente da máquina subversiva de Jacobina”, tornando-se o personagem mais investigado da operação militar no município. Contra ele foi decretada prisão preventiva, além de interrogatórios e período de reclusão durante a repressão política. Décadas depois, sua condição de perseguido político seria oficialmente reconhecida pelo Estado brasileiro, encerrando um capítulo de injustiça que permaneceu oculto por muitos anos.
Esta reportagem faz pardte de uma série especial do Blog Jacobina 24 Horas dedicada aos acontecimentos do regime militar em Jacobina. Nas próximas publicações, outros documentos inéditos, personagens e episódios daquele período serão apresentados, ajudando a reconstruir uma das fases mais importantes — e menos conhecidas — da história política do município.
